A volta da esfinge

Disseram-me que o vermelho, vívido e quente, quando fica azul demais, cura a gente. Aos poucos é possível identificar rastros de sal nas feridas que há tanto busco esconder, que se abrem pra sangrar e deixar todo o sangue impuro escorrer. Quando todo o sangue escoa, tudo fica transparente, num vazio em que não se é possível prever se de solidão ou de liberdade ou de tudo junto misturado ao caos.
Todo o caos é perdoado quando se aprende. Às vezes a gente vai dizer mil vezes eu te amo e vai haver silêncio como resposta porque nem sempre é possível entender o que se passa no mundo infinito e bonito do outro porque o outro é uma caixa de pandora onde os indignos não têm entrada sem chave sem sol sem luz sem chão.
Mil eu te amo cairão à sua esquerda, mais mil eu te amo jorrarão à sua direita e tu não serás atingido porque o mundo é complexo demais pra ser simples. Você já foi simples como uma canção de ninar ou como notas que não dizem nada querendo dizer tudo? Às vezes a gente diz tudo e se afoga. Às vezes a gente precisa ser colo quentinho pro outro se aninhar.
Houve um mar, uma corrente marítima que me trouxe à vida e me fez respirar na superfície do peito e do poro de um amor e se foi. Eu vi minhas escamas mudarem de cor e minha cauda cintilante se arrepiar porque é assim quando a gente se quebra.
Depois que a magia se foi e eu consegui caminhar no corpo da terra, os pés começaram a deixar pegadas luminosas e a respiração começou a faltar. Como asma, como, mais uma vez, um sufoco que não se sabe mais quando passa. É um fôlego que se esqueceu de voltar pra superfície pra respirar e morreu.
Às vezes a gente morre. Eu morri desde que nasci. Sou morta, e os mortos me são. Os mortos visitam todos os dias os meus sonhos e me levam pra sítios e superfícies muitas vezes conhecidas, mas sempre está escuro. Ou é tarde. Ser morta nunca me fez ver a luz solar da manhã. Meu inconsciente se esquecer de se amanhecer.
Há muito a busca se tornou encontro porque há um coração que aprendeu a pulsar na mesma batida que eu e esse coração se chama alado. E quando ele voa eu toco o céu porque o céu foi me dado de presente em notas de Raul Seixas e Legião Urbana quando eu ainda nem sabia o que esperar direito da vida. Então, numa surpresa, a vida me esperou. E eu, por fim, a abracei. A vida me mostrou que esperar pelo amor era esperar por pirâmides e desertos e um sol de mais de quarenta graus fritando tudo. Fritou a dor. Fritou tanta coisa. E aí, nasceu uma flor lilás que me contou sobre o destino e que tudo o que está escrito é feito com tinta encantada de diamante. E eu me escrevi, me decifrei. Me perdoei. Eu sou o céu e o chão. O nascente e o poente. Os extremos. Me vi, sendo pura e legítima tábua de esmeralda. Só sabe ler quem tem a chave da vida e do destino bordado no lado esquerdo do corpo e olhos de aves de rapina. Ninguém mais destrói o que se torna rocha, inteira, completa, sou filha de rei, kaô. Eu devoro os dias e as noites porque sou viva. Ser viva me faz falar calma e docemente sobre meus sentimentos e ter orgulho, porque a vida é dual. O amor também. Depende de duas boas vontades, duas entregas e duas coragens. O medo tem medo da coragem de quem se entrega. E aí a gente vence a resistência. E aí a gente vence a solidão. Quando a gente vence a solidão, a gente nasce de novo e pode, finalmente, ser feliz.

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